Amenorreia funcional em mulheres que treinam: o que seu corpo está tentando dizer?


Ficar sem menstruar durante períodos de treino intenso não é uma adaptação normal do corpo — é um sinal de alerta. Quando o ciclo menstrual desaparece em meio a treinos pesados e dietas restritivas, isso pode indicar amenorreia funcional hipotalâmica, um distúrbio que merece atenção.

Esse quadro não é apenas comum entre atletas de elite. Muitas mulheres ativas, mesmo sem competir, podem apresentar sinais silenciosos de desequilíbrio hormonal relacionados a excesso de atividade física, déficit energético e estresse.

Nosso médico do esporte, Dr. Rafael Levi, explica que o corpo prioriza a sobrevivência em vez da reprodução quando percebe que há pouca energia disponível, e para isso, suprime a produção de hormônios essenciais como o GnRH, LH e FSH — o que leva à interrupção do ciclo menstrual.


O que causa a amenorreia funcional?

O principal gatilho é o desequilíbrio entre o que o corpo gasta e o que recebe, tanto física quanto emocionalmente. Entre os principais fatores estão:

  • Treinos intensos e prolongados

  • Dietas restritivas ou perda de peso rápida

  • Altos níveis de cortisol e prolactina

  • Estresse psicológico crônico

Esse cenário reduz a energia disponível para funções consideradas não essenciais à sobrevivência, como a ovulação. O resultado? O corpo pausa o ciclo menstrual.


O que é a tríade da mulher atleta?

A amenorreia funcional é parte de uma condição mais ampla chamada tríade da mulher atleta, composta por:

  1. Ausência ou irregularidade menstrual

  2. Baixa densidade mineral óssea

  3. Comportamentos alimentares disfuncionais

Estudos mostram que até 66% das atletas de alto rendimento podem apresentar sintomas dessa tríade, mas o número também é alto entre mulheres fisicamente ativas que não se consideram atletas.


Quais são os riscos à saúde?

A ausência de menstruação prolongada não deve ser ignorada. A queda nos níveis de estrogênio afeta não apenas o sistema reprodutivo, mas também:

  • Aumenta o risco de osteoporose precoce

  • Pode causar infertilidade

  • Favorece fraturas por estresse

  • Aumenta o risco cardiovascular e metabólico

A boa notícia é que a recuperação é possível, especialmente quando há intervenção precoce para ajustar treino, alimentação e descanso.


Como reverter o quadro?

A chave está no equilíbrio:

  • Reduzir o volume e a intensidade dos treinos (20–30%)

  • Aumentar a ingestão calórica, respeitando a demanda do corpo

  • Garantir sono de qualidade e controle de estresse emocional

  • Fazer acompanhamento médico com avaliação hormonal e densitometria óssea, se necessário

Quando há energia suficiente e menos estresse, o corpo entende que é seguro voltar a funcionar plenamente — inclusive com o retorno da menstruação.


Conclusão

Parar de menstruar durante treinos intensos não é sinal de desempenho, e sim um alerta do corpo. Entender a amenorreia funcional hipotalâmica como um reflexo do desequilíbrio energético é o primeiro passo para proteger a saúde hormonal, óssea e metabólica da mulher.

Com ajustes inteligentes na rotina e apoio médico especializado, é possível retomar o equilíbrio do corpo, melhorar a performance e cuidar da saúde de forma sustentável.